ART E ECOLOGICAMENTE CORRETA
Ilustrador Haroldo Ayres apresenta saída
encontrada para manter o projeto Reciclarte e resgata trajetória.
Em um único quadro feito
pelo artista
plástico Haroldo Ayres nota-se a presença de diversas manifestações
artísticas - do traço inicialmente feito a lápis, passando pela colorização com
giz de cera (ou lápis de cor), até o acabamento pirografado. Mais que isso, as
obras do técnico especializado em ilustrações científicas também “transpiram”
ciência e isso não apenas por causa dos nomes científicos das espécies, nesse
caso, utilizados para batizar as peças. O papel que recebe essas criações
também tem origem peculiar: é fabricado por ele.
“Esse projeto que conduzo o
Reciclarte, foi criado há mais de 20 anos. O objetivo era reutilizar matérias
como MDF, gesso, madeira, pedra e até película de raio-X, entre outros, para
servir de base para as minhas obras”, disse. “Quando percebi que ficou difícil
conseguir esse material, pensei ‘porque não fazer meu próprio”? ’. Daí em
diante, me informei com algumas técnicas de produção de papel reciclável e
iniciei o processo, complementou Ayres.
Devidamente aperfeiçoada por
Haroldo,
a técnica, que também é lecionada no ateliê, tem como objetivo principal
instruir as pessoas a reutilizar restos de alimentos e outros itens. “Temos
papel feito na casca de cebola, capim-tiririca, couve, casca de macaxeira,
enfim, tudo o que tiver fibras para dar resistência. O resultado é
biodegradável, por conta de ausência de produtos químicos pesados, pois
utilizamos apenas o que já esta na cozinha”, ressaltou.
De forma breve, Haroldo
explicou, por meio de demonstração, que em uma mistura de água com goma e
filamentos de papel é despejada certa quantidade de ‘matéria prima’ – “Essa
aqui contém capim-tiririca e saco de cimento”. O passo seguinte, após mexer por
alguns segundos, é levar ao fundo do vasilhame uma tela de silk-screen. “Esse
material que fica na tela vai para secagem”. Já é nosso papel, acrescentou, ao
dizer que esse ultima estágio demora de 24 a 72 horas. “Tem de se tomar cuidado
com o vento e sol intensos, pois isso influencia na qualidade do papel”.
Com aspecto rústico, a folha
tem pouca resistência à água (o que a torna facilmente degradável). Apesar
disso, enquanto seca é bem resistente. “Esse é o ponto certo”, assegurou,
baseando-se na premissa do químico francês Antoine Lavoisier de que “na
natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
VERSATILIDADE
Prestes a completar 60 anos,
Haroldo desenvolve cursos e oficinas relacionadas a todas as técnicas dominadas
por ele. A pirogravura, inclusive, rendeu-lhe nomeação como membro da
Associação de Pirografistas Profissionais Internacionais.
“É uma das habilidades
artísticas mais antigas da humanidade. Eu trabalho com ela sobre superfícies
mais rígidas (MDF, madeira) e delgadas (papel, película de raios-X,
calendários)”. Exemplificou.
Para isso, ele adaptou um
equipamento próprio para eletricista, utilizando-se de componentes de chuveiro
elétrico da casa onde reside. “Com as resistências em contato eu vou
contornando o desenho e fazendo acabamento”, explicou.
Outra aula conduzida por ele
é sobre pintura com lápis de cor. “Percebi que meus netos, sobrinhos e
afilhados, por conta desse avanço tecnológico com computadores e smartphones,
deixaram de lado essa tradição. Tenho quadro para vendas pintado dessa forma e
ofereço oficinas com esse tema”, informou. “É uma iniciativa muito simples, mas
com resultados gigantescos, enquanto há outras com investimento astronômico
cujos frutos ninguém ver por aí”, finalizou
o artista.
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